Um relatório da Polícia Civil de São Paulo, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro, revelou uma suposta manobra da advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos para ocultar movimentações financeiras suspeitas. Na última quinta-feira (21), uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil resultou na prisão de Deolane em sua residência em Barueri, na Grande São Paulo. Também foram emitidos mandados de prisão contra Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que já se encontra encarcerado, além de alguns de seus familiares.

O documento aponta que Deolane registrou um boletim de ocorrência por uso indevido de seus dados apenas dois dias após a polícia anexar provas que a conectavam ao núcleo financeiro do PCC. As investigações tiveram início em 28 de março de 2022, quando relatórios de análise de dispositivos eletrônicos apreendidos foram incorporados ao processo da Operação Lado a Lado. Entre os materiais analisados, a polícia encontrou, no celular de Ciro César Lemos, considerado o operador de um esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma transportadora, imagens de comprovantes de depósitos bancários que tinham como destino contas de Deolane.

Bilhetes interceptados por agentes da polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, em São Paulo, levaram à prisão de Deolane. A investigação sugere que a transportadora em questão era mais do que uma simples prestadora de serviços, sendo na verdade uma estrutura montada e gerida indiretamente pela liderança da facção. Exatamente dois dias após a polícia descobrir os depósitos, em 30 de março de 2022, a influenciadora registrou um boletim na Delegacia Eletrônica de São Paulo, alegando que terceiros haviam criado um documento falso com suas informações e estavam fraudando a abertura de contas em bancos.

Contudo, os investigadores consideram que essa denúncia não foi uma mera coincidência, mas sim uma ação calculada. O relatório afirma que, devido ao "estreito vínculo criminoso" de Deolane com os envolvidos, ela teria sido alertada sobre as descobertas feitas pela polícia. A Polícia Civil refutou a alegação de fraude contida no boletim de ocorrência, sustentando que, se os valores recebidos fossem de serviços advocatícios legítimos, não haveria necessidade de Deolane tentar ocultar as transações ou alegar que as contas eram falsas. O afastamento do sigilo bancário, segundo o documento, confirmou que as contas eram realmente movimentadas por Deolane, contradizendo sua versão de que seus dados estavam sendo utilizados indevidamente.

A investigação concluiu que a influenciadora estava utilizando sua estrutura financeira e a aparente respeitabilidade social para integrar valores ilícitos oriundos da organização criminosa. Em momentos anteriores, a defesa de Deolane negou qualquer ligação com atividades ilegais, insistindo que suas transações financeiras eram compatíveis com sua atuação profissional. Em suas redes sociais, ela chegou a ironizar as suspeitas, mencionando que "lhe pagam bem".

Após sua detenção, Deolane Bezerra se manifestou pela primeira vez, afirmando: "A Justiça vai ser feita" ao deixar a sede da Polícia Civil em São Paulo. Em seguida, ela foi encaminhada à Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte da capital, com uma audiência de custódia marcada para a sexta-feira (22). Quando questionada sobre seu suposto envolvimento em lavagem de dinheiro para Marcola, Deolane respondeu que estava "trabalhando".

A operação que levou à sua prisão investiga um esquema de lavagem relacionado a uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau, controlada por líderes da facção criminosa, que utilizava a empresa para ocultar a origem dos recursos. Além de Deolane, Everton de Souza, conhecido como Player, também foi preso e considerado um operador financeiro da organização.

O advogado de Deolane, Luiz Imparato, afirmou que estava se atualizando sobre os fatos, enquanto o advogado de Marcola, Bruno Ferullo, indicou que ainda iria se inteirar do caso. Diversos outros indivíduos também estão sendo alvo da Operação Vérnix, incluindo parentes de Marcola. Recentemente, Deolane havia passado algumas semanas em Roma, na Itália, e havia sido incluída na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas retornou ao Brasil na quarta-feira (20). Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em sua residência e em outros locais relacionados a ela.

A investigação teve início em 2019, quando bilhetes e manuscritos de presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau foram apreendidos, resultando em três inquéritos sucessivos que revelaram a complexa estrutura criminosa. O primeiro inquérito focou os presos que possuíam os manuscritos, permitindo identificar ordens internas da facção e vínculos com membros de alta hierarquia. O segundo inquérito buscou identificar uma "mulher da transportadora" mencionada nos bilhetes, que foi descoberta como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, sócia da transportadora Lopes Lemos, condenada e atualmente foragida. A investigação culminou na Operação Lado a Lado, que expôs movimentações financeiras incompatíveis e o uso da transportadora como um braço financeiro do PCC.

A apreensão do celular de Ciro César Lemos, que atuava na compra de caminhões e movimentação de recursos da cúpula do PCC, trouxe novas informações sobre o envolvimento de Deolane. Os depósitos direcionados a suas contas e à de Everton de Souza foram encontrados no aparelho, revelando um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia transferências de valores para membros da facção. Com isso, a Operação Vérnix surgiu, buscando aprofundar o entendimento sobre um esquema mais amplo que incluía ramificações financeiras e patrimoniais, além de revelar a utilização de sua imagem pública e atividades empresariais como uma fachada para encobrir a origem ilícita dos recursos.