As vias de terra que dão acesso ao assentamento Bela Vista, situado na zona rural de Araraquara (SP), têm se mostrado um verdadeiro desafio para as crianças que necessitam do transporte escolar para suas aulas. Durante períodos de chuva, a lama e as áreas bloqueadas tornam impossível a passagem dos ônibus, resultando em alunos que não conseguem chegar às escolas.

De acordo com moradores entrevistados pela EPTV, afiliada da TV Globo, essa questão já se arrasta há bastante tempo e impacta diretamente mais de 200 famílias que residem na localidade. "Os ônibus escolares não aparecem, e os carros não conseguem ir para a cidade. Quando chove, ninguém consegue ir à escola. Tudo fica parado", lamentou o agricultor Aparecido Gomes.

A Prefeitura de Araraquara, em resposta, afirmou que as queixas sobre a falta de manutenção nas estradas do assentamento não são verdadeiras.

A situação tem gerado preocupações significativas, especialmente entre as crianças. Lucélia Bueno, uma auxiliar de limpeza que vive em uma propriedade rural, relatou que sua filha, Miriam Reis, de 5 anos, depende do ônibus escolar para ir à creche no assentamento. Quando chove intensamente, o transporte deixa de operar, fazendo com que a menina já tenha passado até duas semanas sem ir à escola. "Como explicar a uma criança de 5 anos que, devido ao local onde mora, ela não pode frequentar a escola? Ela diz: 'Mãe, é muito para eu não aprender. Quando eu chegar na primeira série, não vou saber ler'", contou Lucélia, emocionada.

Miriam também expressou sua tristeza pela distância dos colegas. "Quando fico longe dos meus amigos, fico triste", disse a pequena.

As condições das estradas são tão precárias que, em alguns trechos, até tratores enfrentam dificuldades para transitar após chuvas fortes. Motoristas frequentemente precisam desviar até 1,5 quilômetro para continuar suas viagens. Mesmo em dias sem chuva, as marcas de lama persistem nas vias, e em áreas próximas à região conhecida como Chibarro, motoristas evitam circular quando chove.

"O transporte é ineficiente, os motoristas andam rápido, as rodas caem e os ônibus ficam presos", queixou-se o agricultor Antônio Roberto Batistinha. Além das estradas em mau estado, os moradores estão preocupados com as condições dos veículos que realizam o transporte escolar. Antônio, um dos fundadores do assentamento, mencionou as dificuldades enfrentadas pelos motoristas, que muitas vezes ficam atolados.

Esse problema não se limita apenas à mobilidade, mas também revela as barreiras no acesso à educação para a comunidade rural. Além de impactar a rotina escolar, as estradas danificadas afetam a produção agrícola e o transporte de mercadorias. Os agricultores relatam um aumento no custo do frete para escoar seus produtos. Enquanto o transporte em asfalto custa entre R$ 2,50 e R$ 3 por quilômetro, dentro do assentamento esse valor pode dobrar devido aos desafios de acesso.

"Infelizmente, isso eleva o custo da produção, e esse aumento acaba refletindo na mesa da família brasileira", disse Lucélia.

A Prefeitura de Araraquara, por sua vez, afirma que realiza manutenção regular nas estradas, incluindo a aplicação de cerca de 4 mil metros cúbicos de asfalto reciclado para melhorar as vias. No dia 11, equipes e máquinas estavam em ação para concluir a aplicação do material.

A administração também esclareceu que as informações sobre alunos que teriam ficado duas semanas sem transporte escolar devido a trechos intransitáveis não são verdadeiras. A secretaria municipal da educação monitora diariamente as condições das rotas utilizadas pelo transporte escolar e adota medidas para garantir a segurança dos estudantes. Além disso, todos os motoristas que operam o transporte escolar recebem orientações sobre cuidados com a velocidade e segurança.

A Prefeitura informou ainda que solicitará à empresa responsável um relatório com os registros de velocidade dos veículos utilizados no transporte escolar, e que, caso sejam identificadas qualquer irregularidade, as devidas ações serão tomadas.